sábado, 20 de setembro de 2008

DORIVAL CAYMMI

DORIVAL CAYMMI

Numa das anteriores revistas da “Sábado”, um artigo de Ricardo Marques, faz uma homenagem ao Grandioso Dorival Caymmi , segundo o autor, o ídolo dos pais da bossa nova.
A descrição que o autor nos faz, deixou-me impressionado e com vontade de o partilhar convosco:

Cantou o mar, a Bahia, o Brasil e os brasileiros. Ensinou Cármen Miranda a dançar e esteve casado 68 anos com Stella, que ainda rapariga, viu catar na rádio. O ídolo dos pais da bossa nova morreu “baianamente”.

Trazia o mar no coração, como disse naquele dia. Aos 90 anos, já não precisava de sentir o cheiro da água salgada na areia para se sentir bem. As imagens passavam lentamente na cabeça daquele homem de bigode e cabelos brancos. Ele, em criança, a mergulhar nas águas cristalinas de Itapuã, em Salvador da Bahia. Ele, jovem músico, a escrever versos e mais versos, tantos que chegaram para 20 discos, sobre praias e pescadores. Ele, aos 90 anos, a descansar na varanda, em Perequi vila de três mil habitantes no interior de Minas Gerais, onde a mulher nasceu. A neta sentada à sua frente, com um gravador entre os dois. “Como é que o senhor se sente vivendo longe do mar”?, perguntou ela. “A presença do mar, a presença das coisas físicas que a gente tem não saem da memória, e a memória vê”, respondeu Dorival Caymmi.
Segurava moedas antigas nas mãos, para se distrair e afrouxar os nervos. Às vezes, também gostava de ficar apenas ali, naquela espécie de casa de férias a que sentia prazer em regressar, apenas a “olhar a natureza”. “Ela nos dá momentos de rara felicidade”. Nasceu baiano, a 30 de Abril de 1914, filho de um funcionário público e de uma domestica. O pai era também músico amador, tocava bandolim, piano e violão, e a mãe levava os dias inteiros a cantar para os quatro filhos: Dorival, Deraldo, Dina e Dinair. Aos 13 anos,, cantava no coro da Igreja e aos 16, sem nunca ter tido aulas, escreveu no Sertão, a primeira das composições. A Bahia era demasiado pequena para Dorival, que aos 22 anos já tinha um programa de rádio e um samba premiado: A Bahia também dá valeu-lhe um abajur cor-de-rosa.
Tinha 23 anos quando embarcou num ita(navio que ligava o Norte e o Sul) rumo ao Rio de Janeiro. Partiu para o mar com bilhete de ida, já que, embora permanecendo baiano e voltando a casa de tempos a tempos, nunca mais morou na Bahia. Com a ajuda de um primo, ficou numa pensão de estudantes, publicou desenhos nos jornais e cantou os seus temas nas rádios. Um ano depois, a sua vida mudou.
PRIMEIRO FOI UMA rapariga de 17 anos, no meio de outros jovens talentos, para lá do vidro do estúdio da Rádio Nacional. Foi um domingo. “Foi amor à primeira vista. Eu não sabia que estava amando.”Nesse dia Adelaide Tostes(Stella Maris no meio artístico)cantou Último Desejo.
Casaram-se um ano depois, viveram juntos 68 anos, tiveram três filhos – Dinair, Dorival e Danilo, todos nomes grandes da música brasileira -, sete netos e quatro bisnetos. “Um amor sereno, inexplicável”, disse à neta Stella Caymmi, na varanda de casa da pacata Perequi..
Mas, em 1939, uma outra mulher, portuguesa de Marco de Canaveses, encarregar-se-ia de o tornar irremediavelmente famoso. No filme Banana da Terra, Cármen Miranda, Vestida a rigor e com a ajuda de Dorival, que a guiava atrás da Câmaras, interpretou O que é que a Baiana Tem?. Caymmi tornou-se famoso.”O mais baiano dos grandes nomes da música popular brasileira”, como lhe chamou o jornal O Globo, nunca mais parou de escrever.
A família instalou-se num apartamento de Copacabana, a três quarteirões da praia, numa rua cheia de árvores nos anos 50, os futuros grandes nomes da bossa nova viam em Dorival uma referência. João Gilberto gravou músicas suas e Tom Jobim elogiava o traço moderno do seu trabalho. Na década de 70, compôs Modinha para Gabriela baseado no livro de Gabriela, Cravo e Canela, do seu amigo Jorge Amado.
Dorival nunca aprendeu a nadar, mas nunca esqueceu o mar da Bhia. Morreu a 16 de Agosto, dez dias depois de a mulher ter entrado em coma. No do funeral, o filho mais velho declamou os últimos versos de João Valentão, música inspirada num pescador e que demorou nove anos a escrever.”assim adormece esse homem/Que nunca precisa dormir pra sonhar/Porque não há sonho mais lindo do que sua terra.

10 comentários:

Espaço do João disse...

Seja benvindo caro Carlos Silvano.
Realmente gosto de música em especial do meu tempo de menino e moço. Não gosto de batucada, pois ferem-me os ouvidos. Prefiro o silêncio. O meu blog, não se trata de música.Sou um apaixonado por flores, a natureza e afins. Embora a viver no Litoral Alentejano, sou Madeirense de nascimento, daí a minha vocação pelas belas paisagens e tudo o que a natureza nos dá. Também gosto de política mas, não de politiquices. Já fui autarca e conheço os meandros da política, alguns... Como se calhar verificou pelo meu perfil , sou um Madeirense errante, isto é: tenho conhecido mundo, desde a Europa,Africa, Médio Oriente e, alguns países da América do Sul e do Norte. Trabalhei alguns anos na construção naval, na Indústria mineira, na Indústria petrolífera e, na Produção de energia eléctrica.Sou aquilo a que se chama, pau para toda a obra. Encontro-me actualmente na situação de reformado mas, muitas vezes digo para comigo:- O que é a reforma se todos os dias parecem-me pequenos para o que tenho a fazer? Volte sempre que queira, pois será sempre bem vindo. Um abraço amigo. João

prafrente disse...

E enquanto o homem sonha o mundo pula e avança...
Que cada homem tenha a coragem de nunca desistir dos seus sonhos...e o mundo será melhor...

um abraço

Marcia Barbieri disse...

Adoro Dorival Caymmi.Como sempre escolheu um ótimo texto para compartilhar conosco.

beijos

Vieira Calado disse...

Fiquei inteirado.
Na blogsfera aprende-se muito.
Obrigado

BlueVelvet disse...

Bela homenagem a um dos maiores.
Viverá sempre nos nossos corações através da sua música.
Beijinhos e bom domingo.

Oliver Pickwick disse...

Surpresa agradável encontrar aqui um post deste meu ilustre conterrâneo de Salvador.
Na sua recente passagem, o mar - e todas as águas, acredito, ficaram mais triste.

No entanto, tenho restrições quanto a denominar Caymmi como o pai da bossa nova. Suas belas canções - do ponto de vista de teoria musical, não têm nada em comum com a jazzística bossa nova.
Um abraço!

Patti disse...

Perdas irrecuperáveis, mas que felizmente nos vão deixar muito.

f@ disse...

Sentia o mar nas palavras e no coração cantava o sonho... o azul e os corais as estrelas e "amava" sereias... emoção pura...
beijinhos das nuvens

Tata disse...

Bela homenagem.

"assim adormece esse homem/Que nunca precisa dormir pra sonhar/Porque não há sonho mais lindo do que sua terra".

cezar disse...

muito bom teu texto; muito bom teu blogue!