
EXPERIÊNCIA DE VIDA
Gostava de partilhar convosco a história de um amigo. Daqueles amigos do coração. Amigos verdadeiros. Ao mesmo tempo gostava que ela servisse de reflexão para todos quantos lerem este blog.
Este amigo, tinha acordado bem disposto e bem-humorado para mais um dia de trabalho, ao contrário do que vinha acontecendo ultimamente (no decorrer da história verão porquê). Chegou à empresa por volta das 8,15 horas, visto que o horário de entrada é às 8,30 horas e, horários, ele gosta de os cumprir escrupulosamente. Foi cumprimentando os colegas que lhe iam aparecendo, trocando com um deles um diálogo de alguns minutos.
Como estava previsto sair nesse dia em serviço externo, dirigiu-se à portaria e solicitou um carro da empresa. Passados alguns instantes saiu; percorridos cerca de maia dúzia de quilómetros sentiu uma forte dor de cabeça e no peito, bem como a perda de força do lado esquerdo, no entanto, ainda teve discernimento para ligar para a empresa e, passados poucos minutos já estavam com ele dois colegas, que de seguida o transportaram a uma clínica próxima, onde lhe foram prestados os primeiros cuidados, no entanto, passado muito pouco tempo chegou o 112 que de imediato o transportou ao Hospital Distrital (esta parte da história foi-me contada por um médico que é amigo comum e que por acaso esteve presente).
Por casualidade necessitei de falar com ele e liguei-lhe várias vezes para o telemóvel, mas nunca atendeu. Já não era possível. Liguei para a empresa onde trabalhava e uma colega deu-me conta do que havia acontecido. Tentei saber junto do hospital algo de mais concreto, foi-me dito que tinha sofrido um AVC e que estava na sala de observações. Preocupado, dirigi-me ao hospital, expliquei quem era, e com a ajuda da família deixara-me falar com ele alguns, minutos.
Com voz arrastada e pouco perceptível e a parte esquerda semi-parelisada, olhou para mim com uma lágrima que teimosamente lhe corria pela cara, apertou a minha mão e apenas trocámos meia dúzia de palavras, não mais do que isso.
Passados dois dias voltei ao hospital, já tinha sido transferido para a unidade de AVC’S.Com a voz mais perceptível, contou-me algumas coisas que eu já sabia e outras com as quais fiquei deveras admirado e que me reservo de contar, pois assim respeito a vontade dele. Falou-me do que sentiu quando lhe aconteceu o AVC e das pessoas que de imediato se lembrou, o filho, a mulher, uma sobrinha linda, dos pais e da irmã. Sentiu que provavelmente não os veria nunca mais, nesta altura da conversa, aquela lágrima teimosa voltou a correr-lhe pela face.
Há uma coisa que vou contar e, tenho a certeza, que ele me vai perdoar, porque não posso calar face ao que dele conheço e a revolta que isso me causou, que foi algum tempo antes o terem acusado de falta de profissionalismo. Como podem acusar alguém como ele de falta de profissionalismo, se estava sempre disponível para a empresa, a qualquer dia, a qualquer hora, sempre…, mesmo sabendo que com isso prejudicava a família e a si próprio.
Os bons profissionais são aqueles que ouvem aqui e contam acolá, que como o povo diz levam e trazem? Se são estes, mal estamos quando isso acontece.
Falou-me da vida intensa que teve durante cerca de oito anos, em que quase não tinha tempo para a família, para os amigos ou mesmo para dormir. Eu sabia do que estava a falar pois algumas dessas actividades tinham sido partilhadas comigo. A maioria, ou mesmo todas essas actividades deixou-as a algum tempo, mas o trabalho continuava a absorvê-lo. Aquela lágrima teimosa não parava de lhe correr pela face, enquanto me ia dizendo, “sabes isto é o acumular da vida intensa que os dois levámos durante alguns anos e, agora estou aqui numa cama de hospital” fez ainda questão de dizer que o pessoal auxiliar, enfermagem e médicos têm sido excelentes e incansáveis. Já quase no final da conversa ainda me disse “ tenho fé que rapidamente voltarei à minha vida normal, mas sem excessos”.
Ainda teve tempo para elogiar a Administração da empresa onde trabalha, que tiveram para com ele sempre o comportamento digno, solidário/incansável e cordial.
Perguntei-lhe pelo futuro. Resposta rápida e espontânea “ Só a Deus pertence”.
A visita estava a terminar, despedimo-nos com um até amanhã, quando dobrava a porta da unidade olhei para trás e aquela teimosa lágrima continuava.
Nesta altura já se encontra em casa a recuperar, mas todos os dias nos falamos.
Há!... Esqueci-me de dizer, este meu amigo chama-se João e tem 45 anos.
JC
Gostava de partilhar convosco a história de um amigo. Daqueles amigos do coração. Amigos verdadeiros. Ao mesmo tempo gostava que ela servisse de reflexão para todos quantos lerem este blog.
Este amigo, tinha acordado bem disposto e bem-humorado para mais um dia de trabalho, ao contrário do que vinha acontecendo ultimamente (no decorrer da história verão porquê). Chegou à empresa por volta das 8,15 horas, visto que o horário de entrada é às 8,30 horas e, horários, ele gosta de os cumprir escrupulosamente. Foi cumprimentando os colegas que lhe iam aparecendo, trocando com um deles um diálogo de alguns minutos.
Como estava previsto sair nesse dia em serviço externo, dirigiu-se à portaria e solicitou um carro da empresa. Passados alguns instantes saiu; percorridos cerca de maia dúzia de quilómetros sentiu uma forte dor de cabeça e no peito, bem como a perda de força do lado esquerdo, no entanto, ainda teve discernimento para ligar para a empresa e, passados poucos minutos já estavam com ele dois colegas, que de seguida o transportaram a uma clínica próxima, onde lhe foram prestados os primeiros cuidados, no entanto, passado muito pouco tempo chegou o 112 que de imediato o transportou ao Hospital Distrital (esta parte da história foi-me contada por um médico que é amigo comum e que por acaso esteve presente).
Por casualidade necessitei de falar com ele e liguei-lhe várias vezes para o telemóvel, mas nunca atendeu. Já não era possível. Liguei para a empresa onde trabalhava e uma colega deu-me conta do que havia acontecido. Tentei saber junto do hospital algo de mais concreto, foi-me dito que tinha sofrido um AVC e que estava na sala de observações. Preocupado, dirigi-me ao hospital, expliquei quem era, e com a ajuda da família deixara-me falar com ele alguns, minutos.
Com voz arrastada e pouco perceptível e a parte esquerda semi-parelisada, olhou para mim com uma lágrima que teimosamente lhe corria pela cara, apertou a minha mão e apenas trocámos meia dúzia de palavras, não mais do que isso.
Passados dois dias voltei ao hospital, já tinha sido transferido para a unidade de AVC’S.Com a voz mais perceptível, contou-me algumas coisas que eu já sabia e outras com as quais fiquei deveras admirado e que me reservo de contar, pois assim respeito a vontade dele. Falou-me do que sentiu quando lhe aconteceu o AVC e das pessoas que de imediato se lembrou, o filho, a mulher, uma sobrinha linda, dos pais e da irmã. Sentiu que provavelmente não os veria nunca mais, nesta altura da conversa, aquela lágrima teimosa voltou a correr-lhe pela face.
Há uma coisa que vou contar e, tenho a certeza, que ele me vai perdoar, porque não posso calar face ao que dele conheço e a revolta que isso me causou, que foi algum tempo antes o terem acusado de falta de profissionalismo. Como podem acusar alguém como ele de falta de profissionalismo, se estava sempre disponível para a empresa, a qualquer dia, a qualquer hora, sempre…, mesmo sabendo que com isso prejudicava a família e a si próprio.
Os bons profissionais são aqueles que ouvem aqui e contam acolá, que como o povo diz levam e trazem? Se são estes, mal estamos quando isso acontece.
Falou-me da vida intensa que teve durante cerca de oito anos, em que quase não tinha tempo para a família, para os amigos ou mesmo para dormir. Eu sabia do que estava a falar pois algumas dessas actividades tinham sido partilhadas comigo. A maioria, ou mesmo todas essas actividades deixou-as a algum tempo, mas o trabalho continuava a absorvê-lo. Aquela lágrima teimosa não parava de lhe correr pela face, enquanto me ia dizendo, “sabes isto é o acumular da vida intensa que os dois levámos durante alguns anos e, agora estou aqui numa cama de hospital” fez ainda questão de dizer que o pessoal auxiliar, enfermagem e médicos têm sido excelentes e incansáveis. Já quase no final da conversa ainda me disse “ tenho fé que rapidamente voltarei à minha vida normal, mas sem excessos”.
Ainda teve tempo para elogiar a Administração da empresa onde trabalha, que tiveram para com ele sempre o comportamento digno, solidário/incansável e cordial.
Perguntei-lhe pelo futuro. Resposta rápida e espontânea “ Só a Deus pertence”.
A visita estava a terminar, despedimo-nos com um até amanhã, quando dobrava a porta da unidade olhei para trás e aquela teimosa lágrima continuava.
Nesta altura já se encontra em casa a recuperar, mas todos os dias nos falamos.
Há!... Esqueci-me de dizer, este meu amigo chama-se João e tem 45 anos.
JC