CIDADES RUÍDOS - 1 
PÁSSAROS NÃO CONSEGUEM FAZER-SE OUVIR
Os chilreios matinais, que ainda se ouvem pelas cidades, poderão acabar dentro de pouco tempo.
Para já, os pássaros vêem-se forçados a alterar as suas melodias para se fazerem ouvir pelos seus semelhantes.
Nascer do sol na cidade. O breve silêncio da noite dá lugar ao rugido fraco dos automóveis, camiões e fábricas, mas há um som cuja ausência é notória. O familiar coro da aurora, acompanhado pela sua rica mistura de melodias e pios, já não se ouve. Em vez dele, ouvimos uma música espantosamente frágil: bárbara, aguda e, por vezes, estridente. Sejam bem vindos à paisagem sonora do futuro.
Não se trata de uma visão catastrofista, mas da previsão de cientistas que estudaram as consequências da poluição sonora sobre a vida dos pássaros urbanos. O clamor crescente proveniente das cidades e das estradas pode parecer-nos desagradável, mas, para os pássaros, pode significar a diferença entre a vida e a morte. Este fundo sonoro consegue camuflar, em simultâneo, o ruído dos predadores que se aproximam e os pios que anunciam perigo. Poderá, além disso, alterar as hipóteses de reprodução dos indivíduos ao abafar o canto que os machos utilizam para atrair as fêmeas e marcar o seu território.
O impacto de tal ruído já é inegável. Algumas espécies deixaram, pura e simplesmente, de ser capazes de se fazer ouvir por entre esta barulheira crescente e encontram-se encurraladas fora da cidade. Outras começam a modificar o seu modo de comunicação. A longo prazo, poderão aparecer novas espécies. Se os níveis sonoros continuarem a aumentar, é inevitável que a vida dos pássaros urbanos mude de forma significativa.
Se prestarmos atenção, essas mudanças já são perceptíveis. Vejamos um exemplo revelador: agora, os pássaros cantam fora dos períodos do princípio do fim do dia, os momentos em que habitualmente se manifestavam mais. Às primeiras horas do dia o barulho do vento e de outras turbulências está no seu ponto mais baixo e, por conseguinte, os sons chegam mais longe, mas não se tivermos em conta o tráfego da hora de ponta.
Richard Fuller, da Universidade de Sheffield, no Reino Unido, descobriu que alguns piscos de peito ruivo desistiram do seu concerto matinal e passaram a cantar à noite, para escapar aos sons agressivos do dia. Esta mudança foi atribuída, de início, aos efeitos perturbadores da poluição luminosa, mas o estudo deste cientista revela que os ruídos diurnos têm um impacto claramente mais forte: os bairros da cidade onde Fuller estudou estes cantos nocturnos são mais ruidosos do que os outros bairros, durante o dia.

PÁSSAROS NÃO CONSEGUEM FAZER-SE OUVIR
Os chilreios matinais, que ainda se ouvem pelas cidades, poderão acabar dentro de pouco tempo.
Para já, os pássaros vêem-se forçados a alterar as suas melodias para se fazerem ouvir pelos seus semelhantes.
Nascer do sol na cidade. O breve silêncio da noite dá lugar ao rugido fraco dos automóveis, camiões e fábricas, mas há um som cuja ausência é notória. O familiar coro da aurora, acompanhado pela sua rica mistura de melodias e pios, já não se ouve. Em vez dele, ouvimos uma música espantosamente frágil: bárbara, aguda e, por vezes, estridente. Sejam bem vindos à paisagem sonora do futuro.
Não se trata de uma visão catastrofista, mas da previsão de cientistas que estudaram as consequências da poluição sonora sobre a vida dos pássaros urbanos. O clamor crescente proveniente das cidades e das estradas pode parecer-nos desagradável, mas, para os pássaros, pode significar a diferença entre a vida e a morte. Este fundo sonoro consegue camuflar, em simultâneo, o ruído dos predadores que se aproximam e os pios que anunciam perigo. Poderá, além disso, alterar as hipóteses de reprodução dos indivíduos ao abafar o canto que os machos utilizam para atrair as fêmeas e marcar o seu território.
O impacto de tal ruído já é inegável. Algumas espécies deixaram, pura e simplesmente, de ser capazes de se fazer ouvir por entre esta barulheira crescente e encontram-se encurraladas fora da cidade. Outras começam a modificar o seu modo de comunicação. A longo prazo, poderão aparecer novas espécies. Se os níveis sonoros continuarem a aumentar, é inevitável que a vida dos pássaros urbanos mude de forma significativa.
Se prestarmos atenção, essas mudanças já são perceptíveis. Vejamos um exemplo revelador: agora, os pássaros cantam fora dos períodos do princípio do fim do dia, os momentos em que habitualmente se manifestavam mais. Às primeiras horas do dia o barulho do vento e de outras turbulências está no seu ponto mais baixo e, por conseguinte, os sons chegam mais longe, mas não se tivermos em conta o tráfego da hora de ponta.
Richard Fuller, da Universidade de Sheffield, no Reino Unido, descobriu que alguns piscos de peito ruivo desistiram do seu concerto matinal e passaram a cantar à noite, para escapar aos sons agressivos do dia. Esta mudança foi atribuída, de início, aos efeitos perturbadores da poluição luminosa, mas o estudo deste cientista revela que os ruídos diurnos têm um impacto claramente mais forte: os bairros da cidade onde Fuller estudou estes cantos nocturnos são mais ruidosos do que os outros bairros, durante o dia.
(continua...)
EXCERTO DE REVISTA NEW SCIENTIST – LONDRES
AUTOR ED YONG
DE MAR./08
EXCERTO DE REVISTA NEW SCIENTIST – LONDRES
AUTOR ED YONG
DE MAR./08
JC