segunda-feira, 8 de setembro de 2008

TUDO O QUE O VENTO NÃO LEVA

Tudo o que o vento não leva
Ao ler um artigo de José Eduardo Agualusa, autor por quem tenho profunda admiração, na revista Pública do dia 7 do corrente mês de Setembro, não resisti a transcrevê-lo para aqui o partilhar convosco.

Vejo na televisão imagens de Nova Orleães batida pelos ventos. Três rapazes abrem os braços enquanto tentam avançar sobre o asfalto molhado de encontro às fortes rajadas – quase voam. Voarão?
Vem-me um desejo de estar lá, com eles, também eu jovem e irresponsável, abraçando a tempestade.
Sempre gostei de temporais. Nem conheço nada mais belo e empolgante do que uma tempestade tropical, com aquela luz de princípio de mundo, chuva grossa e trovoada – excepto certas mulheres.
Sempre me pareceu natural baptizar os furacões com nomes de mulheres. Era assim antes que essa doença infantil do pensamento ocidental, o “politicamente correcto”, tivesse começado a impor as suas regras absurdas a toda a gente, inclusive aos meteorologistas, que são o que há entre os cientistas de mais parecido com os poetas.
Diz-se: as tempestades. Deveria dizer-se “as furacoas”. Aliás, como a mar (a língua francesa revelou-se neste ponto mais clarividente”. Chamar Gustavo a uma furacoa parece-me uma falta de respeito.
Certa ocasião, numa feira do livro, uma jovem leitora veio ter comigo para me dizer que achava as minhas personagens femininas bastante convincentes.
“Você merecia ser mulher”, acrescentou. Foi o maior elogio que recebi.
Contudo, não me iludo. Tenho perfeita consciência das minhas limitações.
Nenhum homem merece ser mulher. Compreendo a dedicação dos travestis, mas acho-os figuras um pouco patéticas, como um pardal que pretendesse passar por águia.
Portanto, gosto de tempestades, e gosto de mulheres que se parecem com tempestades. Diz-se de alguém quando desmaia que perdeu os sentidos.
Tempestades e mulheres que se parecem com tempestades produzem em mim um efeito oposto: devolve-me sentidos. É como abrir os olhos, tendo-os já abertos, e acordar nalgum lugar ainda mais concreto, mais iluminado, mais colorido, do que a realidade. Mais assustador também, é evidente. As tempestades são perigosas. As mulheres que se parecem com tempestades são igualmente perigosas.
É o perigo, suponho, que nos acende os sentidos. Nunca nos sentimos tão vivos como quando temos que enfrentar a morte. Isso explica a perversa nostalgia que os antigos combatentes cultivam relativamente aos dias terríveis que passaram na guerra. Juntam-se uma vez por ano, não para evocar o que sofreram, mas para se recordarem de como estavam vivos. Depois a morte afastou-se – ao menos a morte na sua versão espectáculo, com o crepitar das metralhadoras e o clarão das explosões - , a morte afastou-se, pois, e a vida perdeu a grandeza e o sabor. Felizmente somos mortais. Nem há pior castigo do que o grande tédio da imortalidade. Pense-se no exemplo de Ahasverus, o judeu errante, que escarneceu de Jesus Cristo enquanto este carregava a cruz, e foi condenado a vagar pelo mundo até ao regresso deste.
Três rapazes abrem os braços enquanto tentam avançar sobre o asfalto molhado de encontro ao coração da tempestade. Daqui a muitos anos hão-de relembrar aquele instante: “Éramos loucos!” – dirá o primeiro. “Sim” – acrescentará o segundo – “e como isso era bom!” O terceiro permanecerá em silêncio. Um sorriso nos lábios. Naquele dia quase voaram.
Estendido na cama de um hospital um homem muito velho recorda as mulheres que passaram pela sua vida. Esqueceu o nome de algumas, não consegue reconstruir o rosto de outras, e tudo isso lhe parece agora imperdoável. Foi feliz com várias. Feliz, distraidamente, como são felizes os bois enquanto pastam. Por alguns instantes incomoda-o a ideia de que a felicidade só se consegue alcançar por um esforço de desatenção. Descobre depois, com crescente sobressalto, que a mulher de quem se recorda melhor foi uma que veio de longe, que arrasou tudo à sua passagem, e depois desapareceu. A mulher de quem se recorda melhor não lhe trouxe a bonança, muito pelo contrário – trouxe-lhe a tempestade. O velho fecha os olhos e também ele sorri. Foi um tempo em que quase voou.

11 comentários:

BlueVelvet disse...

Como não li a revista, ainda bem que o transcreveu aqui.
Li-o de uma penada, sempre com um sorriso nos lábios:
de ironia, pelo facto dos furacões costumarem ter nome de mulheres e isso ter sido considerado politicamente incorrecto, e daí terem aparecido os senhores Gustav;
de prazer, porque também adoro tempestades;
de satisfação porque também sou uma mulher-furacão.
Beijinhos e veludinhos azuis

prafrente disse...

É certo que não sou "obrigado" a concordar com Agualusa...mas lá que ele escreve bem , lá isso escreve...

Também eu gosto de um mar revolto, numa manhã de inverno...quando, sózinho, frente ao oceano, vejo as ondas encapeladas e escuto o rugido profundo da natureza em fúria...mas não creio que um pescador enfrente uma tempestade maritima com um tão grande sentido de "beleza"natural.Nem que os habitantes de Nova Orleaes se sintam particularmente maravilhados com um tornado que que os deixou na mais profunda miséria...
Quanto ao utilizar nomes masculinos ou femininos para definir certos fenómenos atmosféricos é uma coisa de somenos importância face á gravidade dos efeitos provocados por esses mesmos fenómenos.

um abraço

Vieira Calado disse...

Um abraço amigo.

Marcia Barbieri disse...

JC,
muito bem escolhido a crônica,terminei de ler e fiquei arrepiada.Fico aqui me interrogando se sou garoa ou tempestade.Não sei,mas que torço pra ser tempestade,torço.

Beijos

dona tela disse...

Foi hoje a minha rentrée!

Beijinhos.

Maria Dias disse...

Nossa!Achei lindo este texto sabia?Tanto gostei q, se me permitir, vou guarda-lo para publicar quem sabe um dia no meu Avesso.Sabe...Eu tb amo tempestades...Adoro particularmente as de verão...Aquelas que caem forte, com a terra ainda quente, por onde um cheiro de terra molhada nos embriaga os sentidos...Por coincidência hoje aqui no Rio de Janeiro, caiu uma tempestade de gelo acredita?Nem muito calor estva fazendo...Mas esta tempestade apesar de ter me dado um certo medo, me fez sorrir, pois me remeteu há muitos anos atrás, numa época em q eu ainda era uma criança.

Beijo!

Maria Dias disse...

Sim é uma crônica de José Eduardo
Agualusa(Não conheço mas percebo q é muito talentoso).Então tivemos a mesma idéia em trancrevê-lo por aqui não?rs...

Maria disse...

que refrescante este texto. Inteiramente de acordo. Já no que toca à classe masculina, serenidade é sempre um bom atributo ;)

f@ disse...

Não sei se o vento apressado não deixa para traz algo para além dos destroços ...
Beijinhos das nuvens

Tata disse...

Poxa, que palavras profundas. Gostei tanto do que li que estava aqui relendo. Lembrou-me amores que parecem tempestades, como vc mesmo disse, são momentos que quase voamos.

Dia!! :)

Oliver Pickwick disse...

Ótimo texto, caro amigo! Fez bem em transcrevê-lo. E ainda que escassos aqui no Brasil, também gosto de temporais, exceto - é claro, o temporal-mor que é o nosso presidente da república.
Uma abraço!