
O ruído urbano pode levar aves fiéis ao adultério.
O diamante mandarim, monogâmico, localiza o parceiro graças aos pios, que hoje são abafados pela poluição sonora.
Nem todos se sabem adaptar
Apesar de os melros e os chains-reais parecerem capazes de tirar partido do canto flexível para enfrentar a cocofonia urbana, nem todas as aves possuem essa capacidade de se adaptarem aos ruídos fortes e graves. As grandes perdedoras são as que dependem em muito, ou em exclusivo, dos cantos em surdina, e que são fisicamente incapazes de atingirem frequências mais altas. O papa-figos, o cuco, a felosa e até o muito abundante pardal comum incluem-se nesta categoria. Antigamente, estes pardais eram os visitantes mais assíduos dos parques e jardins britânicos, mas a sua população está em queda livre, uma tendência que também se observa no continente europeu. “ Não temos uma explicação concreta, mas o ruído pode ser um factor”, diz Hans Slabbekoorn. “As frequências baixas são uma componente importante do canto dos pardais comuns”.
O ruído forte pode ainda ter efeitos inesperados, como levar as aves mais fiéis ao adultério. O diamante mandarim, por exemplo, mantem uma relação monogâmica graças a uma série e pios que lhe permitem reconhecer e localizar o seu parceiro. John Swaddle, do Colégio William and Mary , em Williamsburg, Estados Unidos, descobriu que um ambiente ruidoso impedia as fêmeas de ouvir esses pios. Este fenómeno enfraquece os laços entre os parceiros, em geral muito fortes, e incita as fêmeas a trocar os seus eleitos por desconhecidos.
Mesmo entre as espécies que parecem ter-se adaptado à poluição sonora, há sinais de que as aves fazem o que podem e que a flexibilidade tem um preço. Os pintarroxos comuns despendem muita energia a tentar cantar mais alto, para abafar os ruídos da cidade, o que encurta as suas melodias. Como as fêmeas desta espécie preferem parceiros capazes de cantar durante muito tempo, os machos que compensam o ambiente sonoro poderão ter menos hipóteses de acasalar. O chapim-real tende a fazer admirar o seu registo vocal de frequência baixa no começo da época de reprodução: Mas essas notas requerem mais esforço, comenta Slabbekoorn. Constituem um bom indicador da potência do cantor e do seu potencial de acasalamento Esses sons melodiosos podem, todavia, perder-se entre a barulheira urbana e os machos que vivem nas cidades são forçados a encontrar um compromisso entre causar boa impressão e fazerem-se simplesmente ouvir.
O facto de os pássaros urbanos elaborarem estratégias destinadas a fazer face ao ruído permite entender a amplitude do problema. “ Há vários factores que influenciam a capacidade das aves de acasalar nas cidades, mas o ruído é o mais ignorado de todos”, observa Slabbekoorn Resta saber em que medida o ruído vai alterar o coro matinal que toda a gente já ouviu pelo menos uma vez na vida.
EXCERTOS REVISTA
NEW SCIENTIST LONDRES
AUTOR ED YONG
DE MAR./08
JC